Resenha de "A Balada de Adam Henry"

Desde que li Reparação, Ian McEwan tornou-se meu escritor contemporâneo favorito. Por esse motivo, estava empolgada para ler A Balada de Adam Henry, seu mais recente romance. A sinopse sugestiva me fez pensar em muitas possibilidades, mas, no fim, como de costume, McEwan conseguiu me surpreender e abalar. 
"Deixe-o ir, disse uma voz, sua própria voz em pensamento. E imediatamente ela foi tomada pelo velho medo. Não podia, não tencionava tocar sozinha o resto de sua vida. Duas velhas amigas íntimas, da sua idade, separadas dos maridos havia muito tempo, ainda odiavam entrar desacompanhadas numa sala apinhada de gente. E, além do simples  brilho social, também contava o amor que sabia sentir por ele. Não o sentia agora."
Anos de dedicação e sagacidade fizeram com que Fiona Maye se tornasse uma das principais juízas do Tribunal Superior, especializada em direito de família, e ficasse conhecida por sua imparcialidade, inteligência e beleza. Agora, com seus cinquenta e nove anos, ela vive uma dura crise conjugal, pois seu marido, o professor Jack, afirma que a vida sexual deles não existe mais e decidiu viver uma arrebatadora paixão com Melanie, uma especialista em estatística de vinte e oito anos. Decidiu, notificou e esperou que sua mulher aceitasse; afinal, apesar de sugerir um casamento aberto, ele ainda a ama.

Enquanto Fiona tenta lidar com seus problemas domésticos - incluindo o arrependimento por não ter tido filhos -, ela terá de resolver o caso de Adam Henry. O garoto de dezessete anos sofre de leucemia e precisa urgentemente de uma transfusão de sangue; contudo, ele e seus familiares são testemunhas de Jeová e recusam esse procedimento. Após ouvir os pais e o médico de Adam, Fiona decide visitá-lo no hospital e acaba encontrando um garoto inteligente, consciente, sensível, divertido e determinado.

Por ser à favor do bem-estar do adolescente, Fiona julga que Adam merece viver, repelindo as crenças da família e concordando com o procedimento. Mesmo contra a sua vontade, o garoto fez a transfusão, sobreviveu, se recuperou, retornou aos estudos e passou a viver tranquilamente com seus pais. Finalmente o caso estava encerrado.

No entanto, Adam envia uma carta à Meritíssima e deixa claro que a decisão dela mudou não apenas a vida dele, mas também o modo como ele pensava. A partir desse evento, o garoto se insinua cada vez mais na vida de Fiona, dedicando-lhe até mesmo um poema: a balada de Adam Henry. Nesse caminho sem volta, a juíza terá de enfrentar situações que nunca lhe passaram pela cabeça e verá sua vida mudada por completo.
"Estava mesmo brincando com ela, atraindo-a para outro terreno, para uma região mais rústica, onde poderia dançar em volta dela, instigá-la a dizer outra vez algo inapropriado e interessante. Ocorreu a Fiona que aquele jovem precoce pudesse estar apenas entediado, insuficientemente estimulado e que, ao ameaçar a própria vida, passara a encenar um drama fascinante no qual era o principal ator de cada cena, conseguindo trazer para a beira de seu leito um cortejo de adultos importantes e importunos. Fosse esse o caso, ela gostaria ainda mais dele. Uma grave doença não era capaz de sufocar sua vitalidade."
Os romances de Ian McEwan incomodam, mas de forma extraordinariamente positiva e impactante. O leitor não consegue sair ileso após a leitura, pois, no meio do percurso, algum elemento na narrativa te marca, causando inúmeras sensações e questionamentos. É deliciosamente arrebatador, para dizer o mínimo. Com A Balada de Adam Henry não foi diferente, terminei a leitura em choque e surpresa com o rumo de dois acontecimentos.

A narrativa em terceira pessoa leva o leitor a conhecer intimamente a rotina de Fiona, uma mulher casada com o trabalho e que ama o que faz. Levando isso em consideração, todos os casos, ações, questões ou termos judiciais foram esmiuçados com perfeição; essa precisão ao esclarecer tais questões e descrever a rotina da juíza exigiu uma leitura mais atenciosa e calma, mas ainda assim, ágil e envolvente. No meio dessa rotina, surge Adam e o caso de seu marido, fazendo com que ela reavalie tudo ao seu redor.

Fiona é uma personagem complexa, firme, racional e inteligente, que esconde suas emoções e vive com disciplina, mas que mostra sinais de pura sensibilidade (e culpa) ao se deparar com certos casos. Até que sua estrutura começa a ruir com a revelação / sugestão de seu marido e, depois, com as cartas de Adam; sua tão conhecida segurança se esvaí aos poucos e ela tenta reconstruí-la dia após dia, mesmo sabendo que nada será como antigamente. Tentei entender Jack, mas só consegui sentir irritação por suas ações. Adam está em uma linha tênue entre a adolescência e a vida adulta, tentando se agarrar àquela que lhe trouxe de volta a vida e é um doce de garoto. Enquanto Mark Berner, grande amigo de Fiona, é despojado e simpático.

A Balada de Adam Henry traz à tona algumas ilusões (não apenas da adolescência, mas também da vida em geral), atos ambíguos, a carência afetiva, o adultério e outras questões morais. O autor lidou com assuntos reais e, por vezes, cotidianos, de maneira tão clara e precisa que tornou os acontecimentos ainda mais palpáveis e chocantes. Tanto o desenrolar como o desfecho da história foram surpreendentes; fiquei decepcionada com a escolha de Fiona, mas foi tão coerente e aceitável, para a própria personagem, que não pude reclamar. Ademais, foi interessante ver como um simples (e inocente) gesto pode mudar tudo.

Gostei bastante da capa e a revisão foi muito bem feita. Apesar de ser uma história complexa e com temas igualmente intensos, o livro tem poucas páginas e pode ser lido rapidamente em um único dia. Não é o meu favorito do Ian McEwan, mas é uma ótima leitura, especialmente porque também vale pela experiência de ler um livro que mexe tanto com o leitor, te fazendo sair da zona de conforto - e particularmente, acho isso incrível!
  • Escrito por Ian McEwan
  • Editora Companhia das Letras.
  • Tradução: Jorio Dauster.
  • 196 páginas.
  • Disponível em todas as livrarias.
  • Recomendo! :)

16 comentários:

  1. oie Rafa
    eu sempre chego aqui e leio a resenha de um livro que eu estava curiosa por ele rs Esse é minha próxima leitura, e assim como você, Ian é um dos meus autores contemporâneos favoritos.
    Agora já vou ler com a expectativa lá nas alturas.
    Excelente resenha
    bjos
    www.mybooklit.com

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  2. Não conhecia a obra, mas fiquei curiosa com a sua resenha. Parece ser muito boa mesmo. Gosto de histórias surpreendentes.

    http://blogquerida.blogspot.com.br/

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  3. Olá Rafa,
    Ainda não li nada do Ian. Mesmo mesmo você tendo elogiado, acho que não é uma boa começar por ele para conhecer a escrita do autor. Acho que vou com "Serena" primeiro e depois leio esse.

    Lucas - Carpe Liber
    http://livrosecontos.blogspot.com.br/

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  4. Ainda não li nada do autor mas me interessei muito pelo enredo desse livro. Parece ser bem diferente de tudo o que já li. Se der vou ler.

    Blog Prefácio

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  5. Oie,
    não conhecia o livro a acho que não li nada do autor ainda.
    O enredo parece ser bem legal

    bjos
    http://blog.vanessasueroz.com.br

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  6. Oooi,


    Ainda não li nada do autor, mas achei um maximo em poucas paginas ele conseguiu abordar todos os temas de uma forma maravilhosa e muito bem trabalhadas e eu gostei disso *O*

    Já anotei o nome e pelas suas indicações deve ser otimo!


    Beijinhos,
    www.entrechocolatesemusicas.com

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  7. Oi!
    Eu ainda não conhecia este livro mas sua resenha me deixou bem instigada a conhecê-lo mais. Parece ser bem interessante e diferente, o fato de você dizer que ele faz o leitor sair da zona de conforto me deixou bem curiosa.

    Beijos,
    Caroline, do http://www.criticandoporai.com.br/

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  8. Nossa, adorei a resenha, e li ela em poucos segundos, o livro parece ser um descoberta muito grande para todos os personagens, um tentando redescobri o outro e fazendo com que todos se conecte e se junte a um enrendo que é muito bem falado em sua resenha!

    Parabéns pela resenha! Adorei!!

    http://lendoferozmente.blogspot.com.br/

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  9. Rafa, não conhecia o autor, mas você falou com tanta paixão que agora estou morrendo de vontade de ler até a lista de supermercado dele, haha.
    Muito boa a resenha. Estou super curiosa com o livro.
    Já quero!
    :D

    Beijooos

    www.casosacasoselivros.com

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  10. Oi, Rafa!
    Eu nunca li nada do autor, mas quero muito. Esta foi a primeira resenha desse livro que li e confesso que fiquei mega interessado. Acredito que irei amar a leitura. Sem falar que adoro protagonistas complexos.
    Espero poder ler em breve, ao menos, a outra obra do autor que você também resenhou.
    Parabéns pela resenha!
    Abraço!

    "Palavras ao Vento..."
    www.leandro-de-lira.com

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  11. Oi! Não conhecia este livro e achei muito interessante o enredo, fiquei curiosa e gostei de saber que as obras deste autor são impactantes. A personagem parece ter sido muito bem construída, isso é um ponto muito positivo. Ótima resenha. :)
    beijos ♥
    nuclear--story.blogspot.com.br

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  12. Oi
    Não conhecia esse livro, mas já deixei anotado o nome do autor para procurar mais informações sobre as obras dele.
    Valeu a dica
    Beijinhos
    Renata
    Escuta Essa

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  13. Oi Rafa! Sempre vejo você falando deste autor, ainda não li nada dele, mas ficou bem curiosa com as tramas. Menina, eu fiquei imaginando o que o garoto representou na vida da protagonista, não sei se estou certa, mas talvez tenha sido algo impróprio? Gosto de livros que nos fazem pensar, que nos abalam emocionalmente, achor que começare a obra do autor por este então.

    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  14. Já li tantos comentários positivos do autor, que estou com vontade de conhecê-lo. Sim, pois é, não li nada dele.
    E olha que minha mãe ama os livros desse homem!!

    Adorei a resenha! Um livro que incomoda realmente tem tudo pra me agradar, rs. Gosto assim, livros que fazem pensar!!

    Bjksss

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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  15. o unico livro de Ian McEwan que eu li foi Reparaçao e adorei, pela resenha esse livro parece ser igualmente bom, vou tentar ler e ve se gosto.

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