Resenha de "A Vítima Perfeita"

Segundo o jornal The Times, a poeta e romancista britânica Sophie Hannah é "a estrela em ascensão do romance policial". Após ler A Vítima Perfeita, foi impossível não concordar com tal colocação.
"Encontrar você me mudou. Foi a melhor coisa disso. Saber que tinha um futuro com você me ajudou a enterrar tudo o que eu odiava do passado. Como gostaria de poder deixar enterrado."
Em março de 2003, Naomi Jenkins foi sequestrada e abusada sexualmente. Desde então, ela fechou-se para o mundo, escondendo o que lhe aconteceu e mantendo sua postura séria, segura, profissional e bem sucedida de outrora.

Três anos depois, Naomi sente-se feliz e em paz, apesar do passado traumático. Toda quinta-feira lhe traz motivos pra sorrir. Afinal, é o dia em que ela se encontra furtivamente com o namorado Robert Hawort no quarto onze do Traveltel. Porém, seu amor é um homem casado e, mesmo depois de um ano de relacionamento, ele ainda diz que não é o momento ideal para se separar da esposa.

Quando Robert não comparece ao encontro semanal, Jenkins sabe que apenas algo terrível poderia tê-lo impossibilitado de entrar em contato com ela. Desesperada, ela vai até a casa dele para se certificar e, enquanto se recupera de um mau súbito ao olhar pela janela da sala, é confrontada por Juliet, a esposa. Após esse estranho encontro, Naomi reporta à polícia que seu namorado está desaparecido e, provavelmente, em perigo.
"Um pequeno espasmo de pânico sacode meu coração. Como irei começar? Era uma vez... Mas não estou confessando ou revelando. Estou mentindo descaradamente - é a forma de encarar isso. A verdade só estará ali para servir à mentira, significando que não tenho de sentir."
Todavia, a polícia se mostra muito calma diante do caso, visto que a esposa de Robert afirma que ele está viajando e em breve estará de volta. Com o intuito de agilizar a investigação, Naomi decide ir ao extremo e contar detalhadamente aos policiais sobre o que lhe aconteceu três anos antes, mas modificando um e outro detalhe: como afirmar que Robert foi o estuprador.

A sargento detetive Charlie Zaller e o inspetor Simon Waterhouse estão à frente do caso e, apesar da desconfiança, descobrem outros quatro relatos de mulheres vítimas de estupro que apresentam semelhanças gritantes com a declaração de Jenkins. Conforme se aprofundam na investigação, percebem como certos detalhes (aleatórios ou com pouca relevância) estão interligados e que o caso é bem mais perigoso e absurdo do que pensavam.
"Estava prestes a levantar quando notou algo. Uma palavra na tela à sua frente: 'teatro'. Levou algum tempo para chegar ao seu cérebro confuso. Quando chegou, ela se empertigou com um pulo, respirando fundo. Piscou algumas vezes para ter certeza de que não alucinava. Não, realmente estava ali, na história de sobrevivente número trinta e um. Um pequeno teatro. [...] Estavam todos ali, todos os detalhes do depoimento de estupro de Naomi Jenkins que Simon mencionara ao telefone. Charlie olhou a data - 3 de julho de 2001."
O tema é forte, assustador e muito revoltante. Na verdade, saber que estupros acontecem com tanta frequência é o pior. Mesmo com o tema triste e desagradável, Hannah escreveu um excelente romance policial, repleto de sinais equivocados e reviravoltas de enlouquecer qualquer leitor. Aliás, ela merece um prêmio por cada mudança de perspectiva na narrativa, pois foi impressionante a forma como encadeou os fatos novos e antigos, formando um quebra-cabeça inimaginável, mas incrivelmente coeso e surpreendente.

Além do tema, os relatos também me incomodaram, devido a quantidade de detalhes. Porém, sem as descrições detalhadas, os detetives teriam muito mais dificuldade em solucionar algumas questões e encontrar um ponto de comparação, assim como o leitor teria problemas em criar uma linha de raciocínio e conectar certos fatos. Por isso, foi necessário, apesar de horrível.

A autora criou personagens de tipos e personalidades variadas, mas todos muito bem construídos: psicopatas, vítimas, pessoas que seguiram em frente e continuaram lutando apesar de, uma sargento durona com problemas pessoais, inspetores engraçados e perceptivos ou rabugentos e sem paciência, uma amiga ou irmã de verdade, pessoas coniventes e tão ruins quanto àqueles que praticam o mal, uma mulher fria e aparentemente louca, etc.

Gostei de toda a equipe de investigação (Charlie, Simon, Proust, Gibbs e Sellers), assim como de Naomi e Yvon, sua melhor amiga. O interessante é que todos eles têm pontos positivos e negativos, fazendo com que o leitor se sensibilize, apoie ou se irrite com alguns de seus atos. No fim, Hannah criou personagens críveis e em constante mudança ou aprendizado. Devo mencionar que a sargento Charlie também sofreu golpes terríveis, com seu senso moral, fiquei impressionada (e aliviada) por ela não ter enlouquecido.

No final, ao unir todos os pequenos detalhes expostos ao longo da narrativa e o discurso de desabafo de Naomi, o título do livro adquire sentido. Através disso, é possível ver claramente como a história foi bem elaborada e desenvolvida: alguns fatos estavam lá o tempo todo (em um diálogo ou uma ação), mas as provas tornavam-se concretas apenas no fim. Pensei que certos personagens eram suspeitos desde o começo, mas nunca poderia imaginar em que nível ou quais segredos cada um escondia.

A história foi dividida em três partes e narrada por Naomi Jenkins, mas com capítulos intercalados narrados em terceira pessoa - sempre que o foco era a investigação ou os detetives. Além disso, há também capítulos para os relatos, declarações e transcrições das entrevistas. A narrativa intercalada foi uma ótima ideia, pois assim o leitor tem acesso a várias perspectivas. A revisão do livro foi muito bem feita e a capa simplista, uma boa escolha.
  • Escrito por Sophie Hannah.
  • Editora Rocco.
  • Tradução: Alexandre Martins.
  • 431 páginas.
  • Disponível em todas as livrarias.
  • Recomendo. :)
*Exemplar para resenha.

19 comentários:

  1. Simplesmente AMO romance policial e não conhecia essa autora... preciso ler esse livro agora kkkkk
    Obrigada pela dica, ótima resenha!


    SUA ESTANTE
    Gatita&Cia.

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  2. Oi Rafa! Eu quero este livro para ontem, só de ler a resenha já criei mil teorias e acho que Naomi está não só escondendo algo, como também tem culpa no cartório. Adorei, eu não pensei que fosse uma trama tão complexa.

    Bjos!! Cida
    Moonlight Books

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  3. Oi, Rafa!
    Eu quero esse livro urgentemente agora! Não conhecia e fiquei deveras interessado. O fato da autora intercalar vários pontos de vista é bastante notório porque poucos conseguem fazer isso e ter um bom desempenho.
    Adorei saber também que o livro é bem cru quanto aos detalhes. Mesmo que me choque, acredito que irei gostar pelo fato de que me impactará, entende?
    Enfim, quero ler. Hehe
    Parabéns pela resenha!
    Abraço!

    "Palavras ao Vento..."
    www.leandro-de-lira.blogspot.com

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  4. Oie,
    não conhecia o livro e confesso que pela capa não chegaria nem perto, mas a temática é interessante.

    bjos
    http://blog.vanessasueroz.com.br

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  5. Que história louca!!!!!!!!

    Choquei aqui. Gente!!! Muito forte isso tudo... Adoro!!!

    Não conhecia o livro, mas já vou ficar de olho nele.

    Adorei a dica!!

    Bjks

    Lelê - http://topensandoemler.blogspot.com.br/

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  6. Oi, Rafa, tudo bem?

    Eu adoro histórias policiais!!! Parece ser uma história bem densa. E que tema delicado, né?
    Eu já gosto de bastante detalhes, daqueles que tocam na gente, que deixam a gente desconfortável...então acho que curtiria esses detalhes que você mencionou!
    Eu não conhecia o livro! Obrigada pela dica! ;)

    Beijo
    - Tamires
    Blog Meu Epílogo | Instagram | Facebook

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  7. Rafaela!
    Apenas com sua resenha já me senti envolvida pelo livro que aborda um tema forte e infelizmente mais comum do que pensamos...
    Vi ontem na TV que São Paulo tem mais de 50 estupros diários, é demais!
    E gostei da autora ter tornado o livro um policial aceitável e crível, com as personagens com defeitos e virtudes.
    Fiquei interessada na leitura.
    “Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo...”(Mario Quintana)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    Participe no nosso Top Comentarista!

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  8. Oi Rafa!
    Quando a Rocco lançou esse livro fiquei: "leio ou não leio?" e decidi esperar pelas resenhas (é que mesmo adorando romances policiais eles tem me parecido "mais do mesmo" de uns tempos para cá). A sua foi a primeira que li e fiquei interessada principalmente pelas reviravoltas. Mas, na verdade, minha maior curiosidade em ler Sophie Hannah é conhecer a obra da autora que teve a autorização para escrever uma nova história do Poirot ;)
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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  9. Não conhecia esse livro, parece ser ótimo, curto muito história policial, o tema é bem revoltante mesmo, fiquei bastante interessada em ler.

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  10. Ca-ra-ca!! Que livro, hein!!
    Parece ser muito forte. Não gosto muito de ler livros com esses temas, tenho medo kkk e uns, me deixam tão revoltada que sai xingando pela casa kkkkk (sim, sempre faço isso kkk).
    POrém, este tem jeito de ser bem arquitetado e escrito de uma forma fluída e viciante. Mesmo com o tema forte, quando começa a ler não para.
    Vou anotar aqui, e se tiver a oportunidade, lerei siim!
    bjooos

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  11. Nossa! Fiquei impressionado com a resenha, imagina o livro, deve ser incrível, tipo Doce Vingança.
    Já tá na minha listinha.

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  12. Eu nao conhecia essa autora ainda e vou pesquisar mais sobre ela. Adoro romances policiais e sao sempre livros que me prendem do começo ao fim, smepre fico empolgada e presa a historia! Espero que esse seja da mesma forma ;)
    Beijosss

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  13. Não conhecia o livro ou a autora, mas adoro romances policiais e esse parece ser bem envolvente... Só não sei se o leria tão cedo pelo tema que aborda. Adoro livros do gênero, mas este parece forte e muitas vezes interrompo a leitura quando algo me choca demais, principalmente quando se trata de uma realidade em nosso dia a dia.
    Anotarei o nome do livro aqui e quando tiver oportunidade o lerei, mas acho que até lá precisarei me preparar.
    Abraços e ótima resenha.

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  14. Nossa o livro parece ser muito bom mesmo e se entendi direito o cara que a estuprou é o namoradinho dela?.Que doido.As vezes eu também fico um pouco entediada com o excesso de detalhes mesmo que sejam relevantes para a história.É bom ver novas escritoras tão boas surgindo.Com certeza vou ler.
    Beijos

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  15. Já ouvi alguns comentários bem positivos com relação a autora, que pelo que pude sentir lendo a sua resenha soube desenvolver a trama com um brilhantismo inigualável. Confesso que o livro não é muito minha praia pois ele fala de uma temática muito forte, difícil, deixa a gente com um gosto amargo. Mais apesar disso, se tivesse a oportunidade, leria esse livro sem problemas.

    bju
    Vento Literário / No Facebook / No Twitter

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  16. Adorei!! Sou fã de romances policiais e não conhecia essa autora. Gostei da trama complexa e cheia de reviravoltas, onde todos podem ser os culpados. Mesmo se tratando de um tema muito forte e chocante, ainda assim quero ler! Obrigada pela dica!

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  17. Sophie Hannah é detentora de uma escrita sensacional. E, com A Vítima Perfeita não deve ser nada diferente. Sempre abordando temas misteriosos, a autora tende à conquistar todos seus leitores.

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  18. Não conhecia esse livro, mas fiquei super curiosa para ler, parece ser uma história muito boa, cheia de mistérios e como adoro livros policiais fiquei bem interessada, sua resenha está muito boa e adicionei o livro em minha lista de leituras.

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  19. Gosto muito de tramas policiais, a investigação é sempre um bom jogo para o leitor. Dá curiosidade e você quer saber o que acontece. Esse tema é bem tenso e gostei de ver que vale a pena por sem bem feito e escrito, com descrições perturbadoras e detalhadas. Adoro quando intercalam personagens narrando, formando aquela teia maior de informações que culminam nos porquês, o resultado da trama e fazem tudo ter sentido. É legal quando vão mudando as perspectivas e você vai ficando perdido e meio louco pra saber o que resolve o mistério. Achei esse um belo livro e gostaria de ler.

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